Abrigo no meio-fio #00195
Ele nunca foi tão organizado quanto naquele dia. Sóbrio como raramente se via, contou dinheiro, separou notas, calculou o táxi, a mudança e a própria partida. Planejou com cuidado algo que jamais planejara antes: ir embora. Conversou com a moça da escola, articulou abrigo temporário para a filha depois da aula. Tudo limpo. Tudo funcional. Tudo pensado para que o mundo continuasse girando sem ele. Parecia, enfim, um adulto. Mas algo saiu do script. A menina percebeu o arranjo. Não soube explicar como — crianças sabem antes de entender. Fugiu. Tinha sete anos e o mapa do bairro gravado nos pés. Ia e vinha sozinha havia tempos, acompanhando irmãos, desviando de esquinas, atravessando perigos. Aprendera cedo a circular porque, quando o pai batia na mãe, era ela quem saía com os menores para distrair o barulho. A violência também ensina geografia. Voltou para casa. Encontrou o vazio. A casa sem móveis, sem vozes, sem promessa. Sentou-se no meio-fio com a pastinha improvisada apertada contra...