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Abrigo no meio-fio #00195

Ele nunca foi tão organizado quanto naquele dia. Sóbrio como raramente se via, contou dinheiro, separou notas, calculou o táxi, a mudança e a própria partida. Planejou com cuidado algo que jamais planejara antes: ir embora. Conversou com a moça da escola, articulou abrigo temporário para a filha depois da aula. Tudo limpo. Tudo funcional. Tudo pensado para que o mundo continuasse girando sem ele. Parecia, enfim, um adulto. Mas algo saiu do script. A menina percebeu o arranjo. Não soube explicar como — crianças sabem antes de entender. Fugiu. Tinha sete anos e o mapa do bairro gravado nos pés. Ia e vinha sozinha havia tempos, acompanhando irmãos, desviando de esquinas, atravessando perigos. Aprendera cedo a circular porque, quando o pai batia na mãe, era ela quem saía com os menores para distrair o barulho. A violência também ensina geografia. Voltou para casa. Encontrou o vazio. A casa sem móveis, sem vozes, sem promessa. Sentou-se no meio-fio com a pastinha improvisada apertada contra...

O que serve, o que presta, o que fica...#00194

Separaram-se os adultos e sobraram as crianças. Seis. Como sobras de um jantar em que ninguém quis lavar a louça. O pai desapareceu de vez. A mãe já havia enlouquecido muito antes. Quando mulheres colapsam, por não darem conta da carga que lhes é naturalizada, patologizam-nas . Quando homens somem, romantizam-nos. Foi comprar cigarro e não achou o caminho de volta.  O clichê do abandono. Nem para disfarçar: o diabo foi tirar leite e tomou um coice da vaca. Seria uma "morte digna" a ser incutida na cabecinha das crianças... A realidade, porém, é sempre mais seca. Ele foi criado apenas pela mãe e repetiu o gesto do próprio pai: sumiu. Para ele, desculpas aceitas. Para ela, o problema a resolver. Afinal, quem mandou abrir as pernas tantas vezes? Quem mandou acreditar nas promessas de um vira-lata qualquer? No fim das contas, a tia mais velha ficou com a batata quente.  E como queimava, precisava ser passada adiante. A solução veio pronta, herdada, aprovada pelos manuais invisíve...

Ovos e suas cascas finas #00193

A universidade gosta de se apresentar como templo do pensamento crítico.  Um lugar onde ideias circulam livres, onde o saber não tem dono, onde o diálogo é método.  Na prática, porém, funciona mais como um condomínio vertical: cada andar sabe exatamente quem pode falar no elevador. Há castas bem delimitadas.  A administrativa cuida do chão, do café, do ar-condicionado, do patrimônio... essas coisas. Há quem diga que a casta do chão manda muito, por dominar bem os processos... mas não é bem assim. Ela segue ordens e, no contexto de universidade pública, apesar de sua autonomia para gerir recursos, o modus operandi é sempre expresso em lei. Porém, a casta  docente, que pretende cuidar das ideias, sobretudo das próprias, nem sempre aceita que seja assim.  A guerra é fria.  E essa  divisão antiga, quase colonial.  Casa-grande com wi-fi .  Senzala com crachá e cadastro no ponto eletrônico. O ambiente é competitivo, mas não no sentido nobre da pala...

Limitada? #00192

Ela chegou nova no setor.  E eu f iz o que sempre faço com todos: fui solícita. Expliquei o trabalho, mostrei caminhos, compartilhei atalhos. Abri a sala e a conversa.  "Sempre bom trocar ideias", pensei. Mas a ingenuidade não costuma durar muito. Logo e la recebeu amigas no departamento. Gente que já circulava ali com a intimidade de quem sabe onde pode falar alto.  Quando saí da sala, eu pude ouvir. Não porque espionava, mas porque o desprezo costuma falar em volume confortável para quem acredita estar seguro. — Como ela é? — De que tipo? — Ela é limitada? Não era curiosidade. Era triagem. Não queriam saber quem eu era — queriam saber o que fazer comigo. Essas perguntas não pedem resposta; pedem autorização. São usadas para decidir se alguém pode ser ignorado, usado, tolerado ou descartado. É o vocabulário limpo da violência social: não xinga, não acusa, apenas classifica. E quem classifica não se compromete. “De que tipo?” Como se gente viesse em prateleira. “Limitada?...

Psicopseudopegadogogia... #00191

Eu costumava chegar cedo. Às vezes cedo demais. Não por zelo — por estratégia mesmo. Sair muito antes do meu horário era a única forma de atravessar a cidade inteira sem ser engolida pela multidão no transporte público. Do extremo leste ao extremo oeste, todos os dias, carregando o corpo já cansado antes mesmo de começar o trabalho. Eu deveria chegar às oito. Chegava às sete e meia. Limite de segurança, minha antecipação me ajudava a criar banco de horas para ser usado em emendas de feriados e outras situações. Esse era um pacto institucional. Tranquilo agir assim e estava tudo certo.  Até o dia em que choveu demais na minha região. Choveu como só chove para quem depende de transporte público: uma chuva que não molha apenas o corpo, mas o tempo, a lógica, a paciência. Ainda assim, consegui chegar no meu horário formal. Não adiantada. Não devendo. Ensopada, já cansada e precisando me colocar em condições de trabalhar. Apenas dentro da regra que ninguém nunca havia se dado ao trabalh...

Hierarquias #00190

Ela me achou extraordinária assim que nos conhecemos. Por algumas semanas fui tratada como exceção: eficiente, inteligente, quase improvável. Eu falava, ela assentia. Eu entregava, ela elogiava.  - Eu vou fazer você subir, viu? - prometeu sem explicar como e porquê... Era uma admiração limpa, sincera, instintiva... até ser contaminada. O veneno não veio dela. Veio por intermédio. Havia uma mulher de confiança. Profissional da saúde mental. Daquelas que falam baixo, usam palavras como escuta, cuidado, ética, microviolências, acolhimento. Alguém a quem histórias são entregues como quem entrega um órgão vital: com a certeza de que não será exibido em praça pública. Pois foi justamente ela quem abriu minha biografia como quem abre um dossiê secreto. Contou o que não lhe pertencia. Minhas origens. Meu passado. Meu ponto de partida. Fez do meu íntimo uma moeda social. Arrivismo puro, com diploma e jargão técnico. Depois disso, a chefe mudou. Não houve anúncio. Houve recalibragem. Eu deix...

Querido caderno de redação...#00189

Eu tinha doze anos e um caderno de redação. Nada além disso. Nenhum corpo em risco, nenhum ato em curso, apenas palavras. Ali eu despejava o que não cabia na casa, o que não era permitido à mesa, o que não encontrava lugar nas regras.  Imaginação, dizem. Como se fosse pouco. Um dia, a mãe da casa pegou meu caderno.  Leu. Confiscou.  O veredito veio rápido, com a autoridade de quem confunde vigilância com cuidado: o conteúdo era avançado demais para uma cabecinha como a minha. Se eu continuasse daquele jeito, acabaria grávida aos treze. Como se a escrita fosse uma coxa aberta. Como se ideias engravidassem corpos. Como se o perigo estivesse entre as pernas e não dentro da cabeça. Mas nunca foi sobre gravidez. Sempre foi sobre controle. O que assusta líderes domésticos, religiosos ou morais não é o sexo: é o pensamento! Ideias são sementes inconvenientes: uma vez inseminadas, não pedem licença, não respeitam hierarquia, não se ajoelham. Crescem. Racham paredes. Derrubam casa...

É possível conseguir curas, então? #00188

A ideia de “curar doenças com a epigenética” precisa ser entendida com cuidado.  A epigenética, por si só, não é um tratamento nem uma terapia, mas um campo de conhecimento que explica como os genes podem ser regulados ao longo da vida.  O que ela mostra é que muitas doenças, inclusive mentais, não são fixas nem imutáveis, porque envolvem processos biológicos que podem mudar. Em algumas doenças físicas, como certos tipos de câncer, já existem medicamentos chamados de terapias epigenéticas, que atuam justamente revertendo alterações epigenéticas anormais. Nesses casos específicos, a epigenética já é usada diretamente na medicina. Mesmo assim, nem sempre se fala em “cura”, mas em controle ou remissão da doença. No caso das doenças mentais, a situação é diferente. Não existe, até o momento, uma cura epigenética direta para condições como depressão, ansiedade, esquizofrenia ou transtorno bipolar. O que a epigenética oferece é algo igualmente importante: ela mostra que essas doença...

E as demais doenças de cunho mental? #00187

A epigenética tem ampliado a compreensão não apenas da depressão, mas de praticamente todas as doenças mentais, ao mostrar que elas resultam da interação contínua entre predisposição biológica e experiência de vida. Em vez de serem causadas por um único gene ou evento isolado, essas condições envolvem alterações na forma como conjuntos de genes são regulados ao longo do tempo, especialmente no cérebro. Nos transtornos de ansiedade, por exemplo, o estresse repetido e a exposição prolongada ao medo podem induzir mudanças epigenéticas em genes ligados à resposta ao perigo. Isso pode tornar o sistema nervoso mais reativo, fazendo com que a pessoa interprete situações neutras como ameaçadoras. Ataques de pânico, fobias e ansiedade generalizada podem ser compreendidos, em parte, como estados em que esses sistemas permanecem ativados além do necessário. No transtorno bipolar, estudos indicam que fatores ambientais, como privação de sono, estresse intenso e uso de substâncias, podem influencia...

Epigenética e depressão #00186

A relação entre epigenética e depressão ajuda a explicar por que esse transtorno não pode ser entendido apenas como um “desequilíbrio químico” nem somente como uma reação psicológica. A depressão surge da interação entre predisposições biológicas e experiências de vida, e a epigenética funciona como uma ponte entre esses dois aspectos. Algumas pessoas nascem com genes que aumentam a vulnerabilidade à depressão, mas isso não significa que a doença irá necessariamente se manifestar. Fatores como estresse crônico, perdas afetivas, traumas, isolamento social ou experiências adversas na infância podem ativar mecanismos epigenéticos que alteram a forma como esses genes são expressos. Em vez de mudar o DNA, essas experiências modificam a intensidade com que certos genes atuam no cérebro. Um dos sistemas mais estudados nesse contexto é o eixo do estresse, responsável pela liberação de hormônios como o cortisol. Em situações de estresse prolongado, marcas epigenéticas podem alterar genes que re...

Sonhos, reflexos e projeções #00216

 Eu já me apaixonei muitas vezes nesta vida. Enxergava nas pessoas algo que eu desejava para mim: um gesto, uma postura, um sorriso diferente, disposição para encarar a vida, um modo singular de ver o mundo. O que eu via sempre me deixava embriagada de encanto. Era uma paixão intensa, quase luminosa. Havia um reconhecimento imediato, quase químico — como se ali estivesse aquilo que me faltava. Como toda embriaguez, vinha a ressaca. O momento em que eu percebia que não havia retorno algum. Doía demais. Não só a cabeça, mas o peito. Então eu me lançava ao sono, porque dormindo eu podia sonhar. E sonhava muito. Sonhos longos, vívidos, recorrentes, povoados pelos rostos, gestos e promessas silenciosas dos objetos do meu afeto. Mas os sonhos também incomodavam, porque acordar significava retornar a uma realidade sem a paixão e com a desilusão do mundo onírico ainda pulsando. Entrei em looping. Tudo doía. Como um vício, por muito tempo usei os sonhos como fuga. Até que entendi que o mund...

O que tem a ver Epigenética e Psicologia? #00185

A relação entre epigenética e psicologia surgiu quando a ciência começou a perceber que experiências psicológicas não são apenas “vividas” pela mente, mas também deixam marcas biológicas no corpo. Emoções, vínculos, traumas, estresse crônico e até cuidados recebidos na infância podem influenciar a forma como certos genes se expressam no cérebro, afetando comportamento, emoções e saúde mental ao longo da vida. O cérebro é um órgão extremamente plástico, ou seja, capaz de se modificar com a experiência. A epigenética é um dos mecanismos que sustentam essa plasticidade. Quando uma pessoa passa por situações repetidas de estresse, por exemplo, isso pode ativar sistemas hormonais ligados ao medo e à sobrevivência. Com o tempo, marcas epigenéticas podem alterar a expressão de genes envolvidos na resposta ao estresse, como aqueles relacionados ao cortisol. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas se tornam mais ansiosas, hipervigilantes ou vulneráveis à depressão após experiências advers...

E se mudássemos de assunto só um pouco? #00184

Já ouviu falar sobre Epigenética? Trata-se de uma área da biologia que busca explicar como o nosso corpo decide quais genes usar em cada momento da vida. Para entender isso, é útil começar pelo DNA. O DNA pode ser imaginado como um grande livro de instruções que contém todas as informações necessárias para formar e manter um organismo. Quase todas as células do corpo possuem exatamente o mesmo DNA, mas, ainda assim, uma célula do cérebro é muito diferente de uma célula da pele ou do fígado. Isso acontece porque nem todas as instruções do livro são lidas ao mesmo tempo. A epigenética estuda justamente os mecanismos que controlam essa leitura. Durante muito tempo, acreditou-se que o DNA determinava quase tudo sobre quem somos e como nosso corpo funciona. Hoje sabemos que o DNA é fundamental, mas não atua sozinho. A epigenética mostra que existem camadas de controle que funcionam como marcadores ou sinais químicos ligados ao DNA ou às proteínas que o organizam. Esses sinais não mudam o te...

A individuação é um processo inerente à energia? #00183

Depende do que chamamos de energia — e Jung foi muito cuidadoso exatamente nesse ponto. Se entendermos energia no sentido físico, indiferenciado, quantitativo, a resposta é não. A energia em si não individua, não tende a sentido, não busca totalidade. Ela apenas se transforma. Jung nunca confundiu energia psíquica com energia física, embora tenha usado o termo libido de modo ampliado. Mas se falamos de energia psíquica, então a resposta se torna mais precisa: não é que a individuação seja inerente à energia psíquica em si, mas a energia psíquica tende à individuação quando não é bloqueada. Essa diferença é crucial. Para Jung, a psique não é um caos energético que ocasionalmente se organiza. Ela é estruturada por arquétipos, e o Self funciona como um princípio organizador e teleológico. Isso significa que a energia psíquica não se move ao acaso; ela é orientada. Quando encontra obstáculos — fixações, identificações rígidas, defesas do ego — ela não desaparece. Ela se distorce, se acumul...

Diante da recusa... #00182

Quando um ser humano se recusa a individuar-se, nada explode de imediato. A psique não entra em colapso repentino, nem “pune” o indivíduo de forma espetacular. O que acontece é mais lento, mais silencioso — e, justamente por isso, mais destrutivo ao longo do tempo. Jung foi muito claro: a individuação não é uma escolha moral ou espiritual elevada; é uma necessidade psíquica. Quando ela é recusada, a energia que deveria conduzir à diferenciação não desaparece. Ela se desvia. A primeira consequência é a fixação. A pessoa permanece identificada com formas que já não correspondem ao seu desenvolvimento interno: papéis sociais, imagens de si, lealdades familiares, ideologias, diagnósticos, arquétipos. Exteriormente, pode parecer adaptada, até bem-sucedida. Interiormente, a vida começa a perder elasticidade. O futuro já não se abre; ele se repete. A sensação dominante não é sofrimento agudo, mas estagnação. Com o tempo, surgem sintomas. Não porque algo “deu errado”, mas porque a psique tenta...