Sonhos #00306
Há sonhos que não são fuga. São contraste. A mente pega um rosto conhecido e retira dele tudo o que o tornou difícil. Mantém a forma, troca o conteúdo. E, por algumas horas, oferece uma versão possível, não da pessoa, mas do que poderia ter sido se houvesse escolha, se houvesse escuta, se houvesse cuidado. No sonho, ele entende sem que você precise explicar. Não disputa, não corrige, não reduz. Está presente de um jeito simples, quase silencioso. E isso toca. Não porque ele tenha mudado. Mas porque revela, com precisão, o que sempre faltou. Acordar é a parte dura. Não pelo fim do sonho, mas pela clareza que vem junto. A lembrança exata de por que aquilo não se sustenta fora dali. Não é falta de sentimento. É falta de compatibilidade com o que se tornou essencial. Porque há um ponto em que gostar não basta. Quando o outro opera a partir de valores que diminuem, que limitam, que negam espaço, o afeto começa a pedir negociação constante. E afeto que precisa se negociar o tempo ...