Humanizações #00335
Passei muito tempo ouvindo que era preciso “humanizar” as relações. Humanizar a educação. Humanizar a saúde. Humanizar os ambientes de trabalho. Humanizar a política. Humanizar o atendimento. Humanizar o cuidado. Sempre achei a palavra curiosa. Porque ela parte de uma premissa quase otimista demais: a de que o humano seria naturalmente associado à delicadeza. Mas basta observar uma sala qualquer por tempo suficiente para perceber o problema. O mesmo ser que acolhe é o que humilha. O mesmo que protege é o que agride. O mesmo que jura lealdade é o que trai. O mesmo que fala de ética pratica pequenas crueldades cotidianas com precisão cirúrgica. O mesmo que escreve poemas aperta gatilhos. O mesmo que chora pela injustiça social destrói emocionalmente quem está abaixo na hierarquia. Então comecei a suspeitar que talvez estivéssemos mesmo usando a palavra errada. Porque a brutalidade também é humana. Aliás, profundamente humana. Talvez até mais espontânea que a del...