A mulher que contava tudo #00397
Ela tinha uma amiga para quem contava tudo. Não porque a amiga perguntasse. Contava porque havia pessoas com quem a gente simplesmente abaixa a guarda. Um dia, descobriu que uma história que havia contado numa terça-feira estava sendo discutida no sábado, na sala de outra pessoa, por gente que ela nunca tinha visto. Não era exatamente uma traição. Era pior: era um hábito. A amiga não entendia o problema. “Mas eu só contei para ele.” Ela percebeu então que havia passado anos escolhendo pessoas pela capacidade de ouvi-la, sem verificar se elas também sabiam guardar. Naquela noite, escreveu uma frase: Nem todo bom ouvinte é um bom guardião. Depois acrescentou outra: Intimidade não é quantidade de coisas que conto. É qualidade do lugar onde elas permanecem. A partir daquele dia, continuou falando. Só começou a escolher melhor onde deixava suas palavras.