Desumanização #00202
Eu escrevo para não entrar no esquema. Escrevo para não aprender a falar da morte como pauta, da doença como logística, da dor como ajuste de cronograma. Escrevo porque, quando não se escreve, a gente começa a caber demais nas normas. E caber demais é o primeiro sintoma de desumanização. Escrevo para manter meus níveis de humanidade altos. Não essa humanidade decorativa dos discursos institucionais, mas a outra: a que treme, se indigna, chora no corredor, perde a compostura e ainda assim não pede desculpas por isso. Escrevo para lembrar que sentir não é fraqueza, é resistência. Que indignação não é descontrole, é lucidez em estado bruto. Que empatia não é ruído no sistema, é o que resta quando o sistema falha. Escrevo porque, se eu parar, corro o risco de me tornar eficiente demais. E eficiência sem humanidade é apenas uma forma elegante de crueldade. E começo este texto como se fosse uma ata de uma reunião qualquer, ou: como se administra a vida até que ela deixe de parecer vida Enten...