Fluxos de mão única #00204
Ela sabia coisas sobre ele, sobre sua vida e seu trabalho, que ele mesmo jamais parara para perceber. Não porque prestasse atenção demais, mas porque estava ali quando ninguém mais estava — e sempre que ele precisava. Nos intervalos. Nas hesitações mínimas. Nos momentos em que falava com convicção apenas para ganhar tempo até acreditar de verdade. Ela havia sido contratada por seu currículo interessante e por sua postura impecável. Depois que entrou, o setor de recursos humanos nunca mais recebeu reclamações daquela área da empresa. Ela absorvia e executava todas as atividades com precisão absoluta. Trabalhavam juntos há anos suficientes para que a comunicação entre eles dispensasse palavras. No trabalho, entendiam-se com uma precisão quase telepática: um silêncio diante da tela, um ajuste feito sem anúncio — e ele seguia como se tivesse pensado em tudo sozinho. Ela organizava tudo antes que fosse necessário. Pensava na sequência correta, na ordem exata de uso, no que viria depois do q...