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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Fluxos de mão única #00204

Ela sabia coisas sobre ele, sobre sua vida e seu trabalho, que ele mesmo jamais parara para perceber. Não porque prestasse atenção demais, mas porque estava ali quando ninguém mais estava — e sempre que ele precisava. Nos intervalos. Nas hesitações mínimas. Nos momentos em que falava com convicção apenas para ganhar tempo até acreditar de verdade. Ela havia sido contratada por seu currículo interessante e por sua postura impecável. Depois que entrou, o setor de recursos humanos nunca mais recebeu reclamações daquela área da empresa. Ela absorvia e executava todas as atividades com precisão absoluta. Trabalhavam juntos há anos suficientes para que a comunicação entre eles dispensasse palavras. No trabalho, entendiam-se com uma precisão quase telepática: um silêncio diante da tela, um ajuste feito sem anúncio — e ele seguia como se tivesse pensado em tudo sozinho. Ela organizava tudo antes que fosse necessário. Pensava na sequência correta, na ordem exata de uso, no que viria depois do q...

Discursos e métodos #00203

Cabe esclarecer que esta história de ficção se passa dentro de um ambiente muito refinado e distinto em um reino tão, tão distante do mundo normal. Recém-convidada a integrar The Alliance for Harmonic Gender Relations , The University of The Fifty Kingdom inaugura, com toda pompa e celebrações, um espaço dedicado a enfrentar a violência, de onde partiriam campanhas, eventos e soluções para a comunidade local. Quem sabe ações que pudessem ser divulgadas em eventos internacionais também. Pessoas referência no tema foram convocadas para compor a equipe, com currículos impecáveis, citações internacionais, fotos em eventos pelo mundo, falas bem ensaiadas sobre o assunto; anos-luz de estrada.  E algo que poderia ter faltado, mas veio junto: os egos das estrelas.   Por causa desses egos, os diálogos entre elas eram impossíveis e frequentemente desembocavam em gritarias a portas fechadas para decidir nomenclaturas, em disputas de território simbólico, em guerras miúdas travestid...

Desumanização #00202

Eu escrevo para não entrar no esquema. Escrevo para não aprender a falar da morte como pauta, da doença como logística, da dor como ajuste de cronograma. Escrevo porque, quando não se escreve, a gente começa a caber demais nas normas. E caber demais é o primeiro sintoma de desumanização. Escrevo para manter meus níveis de humanidade altos. Não essa humanidade decorativa dos discursos institucionais, mas a outra: a que treme, se indigna, chora no corredor, perde a compostura e ainda assim não pede desculpas por isso. Escrevo para lembrar que sentir não é fraqueza, é resistência. Que indignação não é descontrole, é lucidez em estado bruto. Que empatia não é ruído no sistema, é o que resta quando o sistema falha. Escrevo porque, se eu parar, corro o risco de me tornar eficiente demais. E eficiência sem humanidade é apenas uma forma elegante de crueldade. E começo este texto como se fosse uma ata de uma reunião qualquer, ou: como se administra a vida até que ela deixe de parecer vida Enten...

Especialista em microgerenciamento - foi aqui que chamaram um? #00201

Procura-se: Especialista em microgerenciamento Descrição do serviço e exigências para o cargo: capacidade comprovada de paralisar fluxos, gerar insegurança operacional e transformar procedimentos simples em campos minados emocionais. Atuação destacada na criação de conflitos invisíveis e na manutenção de relevância pessoal por meio da vigilância alheia. Trabalhamos em setores distintos, desses que o organograma insiste em separar, mas a prática do trabalho insiste em misturar. Processos se cruzam, demandas se sobrepõem, projetos exigem trânsito, diálogo, inteligência coletiva. É o tipo de engrenagem que só funciona quando as pessoas entendem o todo, e não apenas o parafuso que lhes foi designado apertar todos os dias. Mas ela ainda vibra na frequência da linha de montagem dos anos 1980: um aperta o parafuso, outro não pergunta por quê, e ninguém ousa olhar o produto final. Na cabeça dela, certos assuntos “são só da sua diretoria e é você quem tem que executar”, como se o mundo respeita...

O negócio do senhô não admite satanás, xô satanás, xô satanais... #00200

O apóstolo mor, semideus, aquele que é tipo o pastor principal, era um homem sempre muito ocupado. Era o que diziam. Não com o rebanho, convém esclarecer, mas com sua própria agenda. Não frequentava os cultos comuns — esses eram delegados às formigas aspirantes. Ele mesmo surgia apenas em datas estratégicas: santa ceia, aniversários da igreja, comemorações solenes, datas em que ele mesmo fosse o homenageado, como nos seus aniversários, que eram datas supremas para as cocotas... Ele subia no púlpito como quem entra num palco, trazendo no corpo um cansaço bem ensaiado, desses que inspiram respeito e evitam perguntas. "Homem de Deus, em quem não se acha dolo", esse era o discurso emprestado de Jó, decorado entre os trabalhadores da fé, quando alguém ousava questionar algo. Dizia-se sempre adoentado. Exaurido após anos de dedicação ao ministério. Se fosse verdade, vá lá. O problema é que o repouso nunca o afastava do caixa.  Há quem lembre a bronca que tomou no dia em que deixou ...

Whatever: uma breve etnografia do pequeno poder #00199

Trabalhar numa universidade renomada tem seus encantos. Prédios bonitos, gente importante circulando nos corredores, dividindo o elevador com gente comum, fomentando discursos sobre inclusão, ética e futuro. E, claro, os régulos — essa espécie fascinante que floresce onde um crachá vira cetro. O meu departamento foi nomeado para cuidar de assuntos transversais das diversidades. A estrutura no início contava com alguns estagiários e estes pesquisavam alguns temas sensíveis, desses que viram relatórios, protocolos e, mais tarde, serviços públicos. A engrenagem institucional recém reformulada, ainda estava lenta e cheia de zonas cinzentas, com muitas atividades a serem descobertas e cobertas ainda. Muitas coisas estavam mudando. Novos setores sendo criados, outros adaptados, outros simplesmente sendo politicamente apagados. No meio dessa transição toda, uma estagiária — jovem, atenta, ainda não completamente domesticada — percebeu as mudanças poderiam impactar seu futuro, pois seu objeto ...

Homens com dores de parto...c'est bizarre, non? #00198

Eu era muito jovem e estava fazendo curso de teologia. Ao invés de aproveitar o tempo e cursar uma graduação numa universidade de verdade, eu me enganava em um curso amador na igreja onde frequentava. Pois é. Confesso sem vergonha. Quem nunca errou, que atire a primeira pedra. Se bem que eu ouvi dizer que os atiradores de pedra gostam mesmo não de atirar a primeira, mas a última. A da misericórdia, só que não. Querem atirar para matar mesmo. Enfim, eu queria só ser sincera na minha vida. Desejava unir fé, profissão e propósito de vida — como quem tenta costurar três tecidos que insistem em rasgar em direções opostas. Meu sonho era simples e pra mim na época muito grandioso: ser missionária, pregar o evangelho a toda criatura, essas coisas que a gente aprende a desejar antes de aprender a desconfiar. Naquele tempo, eu ouvia muito dizer que universidade era lugar de pervertidos. A menos que fosse para cursar Direito. Direito era um curso bem cotado e servia muito ao reino local.  Enf...

Eis que te digo...#00197

Em um cidade muito distante, colônia de um reino que não é deste mundo, a igreja evangélica funciona um pouco fora no habitual. Não é apenas um espaço espiritual. Mas se comporta mais como um mercado. Ainda bem que é um lugar distante e essas coisas que vou contar não chegariam jamais ao nosso convívio. Aleluias, pois nesse lugar, há igrejas comercializando almas dizimistas, espaços no céu, conglomerados bem estruturados no céu e por que não na terra também? Com a ajuda de todos, o reino avança... Ultimamente, soubemos que avançou tanto que banco santo foi aberto para facilitar os negócios entre os professam a mesma fé…no metal... mas deixa pra lá. Não vamos polemizar. O que quero mesmo dizer é que, nessas igrejas, dessa cidade cujo nome não é possível citar, há um nicho muito específico que mantém o negócio entre família. Ali o incesto não é pecado, mas totalmente incentivado, seguindo ordens bíblicas: casamentos devem ser feitos entre os irmãos em Jesus. Tá tudo escrito lá pra quem q...

Marcas #00196

Foram tantas as queimaduras que, mesmo depois de adulta, ainda encontro marcas arredondadas pelo corpo. Aparecem sem aviso. Um círculo. Outro. Não há memória de dor localizada. Nenhuma cena. Nenhum som. Partes do corpo foram cauterizadas a sangue frio. Não para curar. Para conter. Não é preciso florear para denunciar violência. A violência se traduz sozinha. O fato basta. Já pensou em tatuar. Ressignificar, dizem. Cobrir a marca com escolha. Mas a agulha da tatuagem carrega um risco: devolver a dor ao corpo. Torná-la mensurável. Quantificável. Como os 62 socos no rosto daquela moça dentro do elevador. Um número fechado. Um cálculo. Uma contabilidade do ódio. Sessenta e dois. Não é excesso. É método. A intenção é a mesma das queimaduras. Não importa o instrumento. Importa o objetivo. Apagar a pessoa. Reduzi-la a superfície. Usar até o limite e descartar como se descarta um objeto que não presta mais. Só eu pude usar. Só eu pude marcar. Agora posso jogar fora. A violência não quer apenas...

Abrigo no meio-fio #00195

Ele nunca foi tão organizado quanto naquele dia. Sóbrio como raramente se via, contou dinheiro, separou notas, calculou o táxi, a mudança e a própria partida. Planejou com cuidado algo que jamais planejara antes: ir embora. Conversou com a moça da escola, articulou abrigo temporário para a filha depois da aula. Tudo limpo. Tudo funcional. Tudo pensado para que o mundo continuasse girando sem ele. Parecia, enfim, um adulto. Mas algo saiu do script. A menina percebeu o arranjo. Não soube explicar como — crianças sabem antes de entender. Fugiu. Tinha sete anos e o mapa do bairro gravado nos pés. Ia e vinha sozinha havia tempos, acompanhando irmãos, desviando de esquinas, atravessando perigos. Aprendera cedo a circular porque, quando o pai batia na mãe, era ela quem saía com os menores para distrair o barulho. A violência também ensina geografia. Voltou para casa. Encontrou o vazio. A casa sem móveis, sem vozes, sem promessa. Sentou-se no meio-fio com a pastinha improvisada apertada contra...

O que serve, o que presta, o que fica...#00194

Separaram-se os adultos e sobraram as crianças. Seis. Como sobras de um jantar em que ninguém quis lavar a louça. O pai desapareceu de vez. A mãe já havia enlouquecido muito antes. Quando mulheres colapsam, por não darem conta da carga que lhes é naturalizada, patologizam-nas . Quando homens somem, romantizam-nos. Foi comprar cigarro e não achou o caminho de volta.  O clichê do abandono. Nem para disfarçar: o diabo foi tirar leite e tomou um coice da vaca. Seria uma "morte digna" a ser incutida na cabecinha das crianças... A realidade, porém, é sempre mais seca. Ele foi criado apenas pela mãe e repetiu o gesto do próprio pai: sumiu. Para ele, desculpas aceitas. Para ela, o problema a resolver. Afinal, quem mandou abrir as pernas tantas vezes? Quem mandou acreditar nas promessas de um vira-lata qualquer? No fim das contas, a tia mais velha ficou com a batata quente.  E como queimava, precisava ser passada adiante. A solução veio pronta, herdada, aprovada pelos manuais invisíve...

Ovos e suas cascas finas #00193

A universidade gosta de se apresentar como templo do pensamento crítico.  Um lugar onde ideias circulam livres, onde o saber não tem dono, onde o diálogo é método.  Na prática, porém, funciona mais como um condomínio vertical: cada andar sabe exatamente quem pode falar no elevador. Há castas bem delimitadas.  A administrativa cuida do chão, do café, do ar-condicionado, do patrimônio... essas coisas. Há quem diga que a casta do chão manda muito, por dominar bem os processos... mas não é bem assim. Ela segue ordens e, no contexto de universidade pública, apesar de sua autonomia para gerir recursos, o modus operandi é sempre expresso em lei. Porém, a casta  docente, que pretende cuidar das ideias, sobretudo das próprias, nem sempre aceita que seja assim.  A guerra é fria.  E essa  divisão antiga, quase colonial.  Casa-grande com wi-fi .  Senzala com crachá e cadastro no ponto eletrônico. O ambiente é competitivo, mas não no sentido nobre da pala...

Limitada? #00192

Ela chegou nova no setor.  E eu f iz o que sempre faço com todos: fui solícita. Expliquei o trabalho, mostrei caminhos, compartilhei atalhos. Abri a sala e a conversa.  "Sempre bom trocar ideias", pensei. Mas a ingenuidade não costuma durar muito. Logo e la recebeu amigas no departamento. Gente que já circulava ali com a intimidade de quem sabe onde pode falar alto.  Quando saí da sala, eu pude ouvir. Não porque espionava, mas porque o desprezo costuma falar em volume confortável para quem acredita estar seguro. — Como ela é? — De que tipo? — Ela é limitada? Não era curiosidade. Era triagem. Não queriam saber quem eu era — queriam saber o que fazer comigo. Essas perguntas não pedem resposta; pedem autorização. São usadas para decidir se alguém pode ser ignorado, usado, tolerado ou descartado. É o vocabulário limpo da violência social: não xinga, não acusa, apenas classifica. E quem classifica não se compromete. “De que tipo?” Como se gente viesse em prateleira. “Limitada?...

Psicopseudopegadogogia... #00191

Eu costumava chegar cedo. Às vezes cedo demais. Não por zelo — por estratégia mesmo. Sair muito antes do meu horário era a única forma de atravessar a cidade inteira sem ser engolida pela multidão no transporte público. Do extremo leste ao extremo oeste, todos os dias, carregando o corpo já cansado antes mesmo de começar o trabalho. Eu deveria chegar às oito. Chegava às sete e meia. Limite de segurança, minha antecipação me ajudava a criar banco de horas para ser usado em emendas de feriados e outras situações. Esse era um pacto institucional. Tranquilo agir assim e estava tudo certo.  Até o dia em que choveu demais na minha região. Choveu como só chove para quem depende de transporte público: uma chuva que não molha apenas o corpo, mas o tempo, a lógica, a paciência. Ainda assim, consegui chegar no meu horário formal. Não adiantada. Não devendo. Ensopada, já cansada e precisando me colocar em condições de trabalhar. Apenas dentro da regra que ninguém nunca havia se dado ao trabalh...

Hierarquias #00190

Ela me achou extraordinária assim que nos conhecemos. Por algumas semanas fui tratada como exceção: eficiente, inteligente, quase improvável. Eu falava, ela assentia. Eu entregava, ela elogiava.  - Eu vou fazer você subir, viu? - prometeu sem explicar como e porquê... Era uma admiração limpa, sincera, instintiva... até ser contaminada. O veneno não veio dela. Veio por intermédio. Havia uma mulher de confiança. Profissional da saúde mental. Daquelas que falam baixo, usam palavras como escuta, cuidado, ética, microviolências, acolhimento. Alguém a quem histórias são entregues como quem entrega um órgão vital: com a certeza de que não será exibido em praça pública. Pois foi justamente ela quem abriu minha biografia como quem abre um dossiê secreto. Contou o que não lhe pertencia. Minhas origens. Meu passado. Meu ponto de partida. Fez do meu íntimo uma moeda social. Arrivismo puro, com diploma e jargão técnico. Depois disso, a chefe mudou. Não houve anúncio. Houve recalibragem. Eu deix...

Querido caderno de redação...#00189

Eu tinha doze anos e um caderno de redação. Nada além disso. Nenhum corpo em risco, nenhum ato em curso, apenas palavras. Ali eu despejava o que não cabia na casa, o que não era permitido à mesa, o que não encontrava lugar nas regras.  Imaginação, dizem. Como se fosse pouco. Um dia, a mãe da casa pegou meu caderno.  Leu. Confiscou.  O veredito veio rápido, com a autoridade de quem confunde vigilância com cuidado: o conteúdo era avançado demais para uma cabecinha como a minha. Se eu continuasse daquele jeito, acabaria grávida aos treze. Como se a escrita fosse uma coxa aberta. Como se ideias engravidassem corpos. Como se o perigo estivesse entre as pernas e não dentro da cabeça. Mas nunca foi sobre gravidez. Sempre foi sobre controle. O que assusta líderes domésticos, religiosos ou morais não é o sexo: é o pensamento! Ideias são sementes inconvenientes: uma vez inseminadas, não pedem licença, não respeitam hierarquia, não se ajoelham. Crescem. Racham paredes. Derrubam casa...

É possível conseguir curas, então? #00188

A ideia de “curar doenças com a epigenética” precisa ser entendida com cuidado.  A epigenética, por si só, não é um tratamento nem uma terapia, mas um campo de conhecimento que explica como os genes podem ser regulados ao longo da vida.  O que ela mostra é que muitas doenças, inclusive mentais, não são fixas nem imutáveis, porque envolvem processos biológicos que podem mudar. Em algumas doenças físicas, como certos tipos de câncer, já existem medicamentos chamados de terapias epigenéticas, que atuam justamente revertendo alterações epigenéticas anormais. Nesses casos específicos, a epigenética já é usada diretamente na medicina. Mesmo assim, nem sempre se fala em “cura”, mas em controle ou remissão da doença. No caso das doenças mentais, a situação é diferente. Não existe, até o momento, uma cura epigenética direta para condições como depressão, ansiedade, esquizofrenia ou transtorno bipolar. O que a epigenética oferece é algo igualmente importante: ela mostra que essas doença...

E as demais doenças de cunho mental? #00187

A epigenética tem ampliado a compreensão não apenas da depressão, mas de praticamente todas as doenças mentais, ao mostrar que elas resultam da interação contínua entre predisposição biológica e experiência de vida. Em vez de serem causadas por um único gene ou evento isolado, essas condições envolvem alterações na forma como conjuntos de genes são regulados ao longo do tempo, especialmente no cérebro. Nos transtornos de ansiedade, por exemplo, o estresse repetido e a exposição prolongada ao medo podem induzir mudanças epigenéticas em genes ligados à resposta ao perigo. Isso pode tornar o sistema nervoso mais reativo, fazendo com que a pessoa interprete situações neutras como ameaçadoras. Ataques de pânico, fobias e ansiedade generalizada podem ser compreendidos, em parte, como estados em que esses sistemas permanecem ativados além do necessário. No transtorno bipolar, estudos indicam que fatores ambientais, como privação de sono, estresse intenso e uso de substâncias, podem influencia...

Epigenética e depressão #00186

A relação entre epigenética e depressão ajuda a explicar por que esse transtorno não pode ser entendido apenas como um “desequilíbrio químico” nem somente como uma reação psicológica. A depressão surge da interação entre predisposições biológicas e experiências de vida, e a epigenética funciona como uma ponte entre esses dois aspectos. Algumas pessoas nascem com genes que aumentam a vulnerabilidade à depressão, mas isso não significa que a doença irá necessariamente se manifestar. Fatores como estresse crônico, perdas afetivas, traumas, isolamento social ou experiências adversas na infância podem ativar mecanismos epigenéticos que alteram a forma como esses genes são expressos. Em vez de mudar o DNA, essas experiências modificam a intensidade com que certos genes atuam no cérebro. Um dos sistemas mais estudados nesse contexto é o eixo do estresse, responsável pela liberação de hormônios como o cortisol. Em situações de estresse prolongado, marcas epigenéticas podem alterar genes que re...