(Ir)Responsabilidade afetiva #00205
Ele me buscou em casa como quem cumpre um compromisso qualquer. Disse que queria conversar, que seria bom caminhar um pouco. Escolheu o parque. O mesmo da minha infância. O mesmo onde eu aprendera a confiar no mundo sem pensar muito. No caminho, falou pouco. Eu ainda acreditava que o silêncio era só cansaço. Ele preferiu me levar ao parque das minhas memórias de infância para me mostrar que a vida adulta é mesmo cruel e sem piedade. Escolheu o lugar onde eu enxergava a vida em cores para me deixar ali com memórias gris. Sentamos num banco que eu conhecia bem demais. Foi ali que ele terminou comigo. Não houve preparo, nem cuidado. Nenhuma frase que merecesse ser lembrada. Tanto que não lembro. Só sei que aconteceu. Descobri depois, não muito depois daquele momento, que ele já estava com outra pessoa. Ela era parecida comigo, disseram. Mas tinha sido casada. Herdara a casa do casamento. Tinha estrutura, estabilidade, um chão pronto. Para ele, era mais vantajoso. Pouco tempo antes, ele ai...