Economia de afetos #00206
Houve um dia em que percebi que o mundo exigia mais do que acolhia. Não era um dia de um gesto só, nem uma palavra isolada. Era o acúmulo de olhares que pesavam, de comentários que rasgavam, de expectativas que esmagavam. Dores insanas... De tanto que doeu, algo em mim dessensibilizou... Foi então que aprendi a me esconder em plena luz. Não apaguei minha presença, aprendi a não oferecê-la mais. A economizar... A voz continuava dentro de mim, mas não precisava mais ser ouvida. O riso, o brilho, a entrega, a intensidade. Tudo ficou contido, guardado em câmaras internas, inacessíveis. Passei a andar pelo mundo como quem cumpre um protocolo de segurança: só o mínimo visível, só o que não provoca reação. Não é por medo, nem vergonha, nem derrota. Nem por consciência de minhas limitações. Economia de afetos por pura sobrevivência. Um dia chamei atenção de alguém que viu em mim apenas o que poderia servir a seus horários de fome: comida pronta, diária, pontual, sem perguntas, sem recipro...