Leituras da vida #00268
Há formas de leitura que não dependem de papel, lombada ou marcador de páginas. Há quem leia romances, ensaios, poemas e biografias. E há quem, além disso, aprenda a ler silêncios, gestos, pausas, arrogâncias, delicadezas e contradições. Ler, no fundo, nunca foi apenas decifrar palavras. Ler é aprender a perceber. E perceber é uma atividade perigosa. Perigosa porque quem aprende a ler de verdade, seja um livro, seja uma sala, seja um rosto, dificilmente continua obedecendo ao mundo da mesma maneira. A leitura alarga. Desarruma. Complica. Obriga a pessoa a desconfiar da primeira explicação, da certeza mais vistosa, da autoridade mais barulhenta, da opinião mais pronta. Ensina que a realidade quase nunca cabe no rótulo apressado com que os medíocres tentam domesticá-la. Talvez por isso sociedades inteiras tenham desconfiado, durante tanto tempo, de quem lia demais. E talvez por isso ainda exista um certo incômodo diante de pessoas que não apenas leem livros, mas também leem ambientes, in...