A porta #00401
Ela costumava deixar a porta aberta. Metaforicamente, dizia. Para as pessoas, para as histórias, para os pedidos, para as urgências. Achava bonito ser acessível. Até perceber que algumas pessoas não entravam. Ocupavam. Sentavam-se no meio da sala. Mudavam os móveis. Abriam gavetas. E ainda perguntavam por que ela parecia diferente. Um dia, alguém bateu. Ela olhou pela janela. Conhecia aquela pessoa. Conhecia também o que acontecia depois que ela entrava. Pela primeira vez, não abriu. Não houve discurso. Não houve briga. Ela simplesmente deixou a porta fechada. Depois pegou um caderno e escreveu: Minha casa não é um teste de generosidade. Pensou um pouco e completou: A partir de agora, acesso será consequência de confiança, não recompensa por insistência. Então guardou o caderno. A casa continuou sendo dela. E isso, descobriu, era uma coisa muito diferente de manter todas as portas abertas.