Ouvir o que não foi dito # 00406
Há pessoas que escutam palavras. E há quem aprenda, com o tempo, a escutar também os intervalos. Porque nem tudo o que importa chega pela boca. Algumas coisas se escondem numa frase interrompida, numa resposta rápida demais, no entusiasmo que desaparece de repente. Estão no “tanto faz” que claramente não tanto faz, no “está tudo bem” pronunciado com a exaustão de quem não quer explicar mais nada. Talvez a comunicação comece quando as palavras terminam. Ouvir o que não foi dito exige uma espécie de silêncio interior. Exige que suspendamos, por alguns instantes, nossa vontade de responder. Há quem escute apenas o suficiente para preparar a própria fala. E há quem permaneça. Quem percebe que uma pessoa pode dizer “não preciso de nada” quando, na verdade, está tentando descobrir se alguém ficaria mesmo assim. Mas ouvir o indizível não significa transformar-se em adivinho. Nem invadir o território do outro com interpretações apressadas. O silêncio também merece respeito. Nem toda...