Devotas do tropeço alheio #00277
Elas não observam o mundo. Farejam deslizes. Vivem com o ouvido em riste, a vaidade engomada e a alma em permanente estado de vigilância, à espera daquele pequeno escorregão alheio que lhes permita cumprir seu ritual favorito: transformar erro em espetáculo e crueldade em método. Não corrigem. Encenam. Não ajudam. Anunciam. Não estendem a mão. Erguem a sobrancelha. O tropeço do outro, para elas, nunca é um detalhe corrigível. É um acontecimento. Um pequeno banquete. Uma chance de subir no caixote invisível da própria pretensa perfeição e declarar ao mundo, sem precisar dizer: vejam como eu não seria capaz disso. Mas seriam. Ou já foram. Ou erram pior, apenas em áreas menos expostas. Porque quem espetaculariza demais a falha alheia quase sempre está só desviando a luz da própria mediocridade interior. Há quem veja um erro e pense: como posso ajudar? Elas veem e pensam: como posso capitalizar? Capitalizam com o tom. Com a pausa. Com a repetição desnecessária. Com a cara de escândalo dian...