Que pena, amor #00281
Havia uma cena pronta. Não dessas que se ensaiam, nem das que se fabricam para fotografia. Uma cena real, dessas que a vida oferece sem aviso e que, por alguma razão rara, vêm inteiras: os filhos adormecidos, o corpo entregue ao descanso depois de um dia gasto em cuidados, a casa ainda recente, conquistada com esforço, e aquele sofá grande demais para o começo de tudo, mas já pequeno para o cansaço compartilhado. Ela dormia com os filhos. Não era desordem. Era repouso. Não era desleixo. Era vínculo. Era o tipo de imagem que, anos depois, alguém chamaria de memória boa sem saber exatamente por quê. Mas ele viu outra coisa. Ele, que escrevia sobre a beleza das coisas simples, não suportou a simplicidade quando ela não obedeceu à sua estética. Não viu o descanso. Viu inadequação. Não viu proximidade. Viu erro de arranjo. Não viu família. Viu um desvio do que considerava correto, bonito, aceitável. E ali, diante de uma cena que pedia silêncio ou, no máximo, um cobertor puxado com cuidado, ...