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Mostrando postagens de fevereiro, 2026

O Banquete - da Embriaguez à Lucidez #00232

Um grupo de homens se reúne para um banquete e decide fazer algo aparentemente simples: falar sobre o amor.  Cada discurso revela um modo diferente de compreendê-lo, como se o amor pudesse ser percorrido em degraus. No início, ele aparece como atração física.  Amor como desejo pelo corpo, pelo prazer, pela beleza visível.  É intenso, arrebatador, mas instável.  Vive do impacto imediato e se alimenta do excesso. Depois, o amor se desloca do prazer para o valor.  Passa a ser visto como força que inspira coragem, feitos nobres, honra e sacrifício. Já não é apenas impulso. Torna-se virtude moral, algo que eleva quem ama. Em seguida, surge uma ideia mais profunda e perigosa: a de que o amor nasce da falta.  Ama-se porque algo parece ausente, quebrado, perdido.  O outro passa a carregar a promessa de completude, como se fosse capaz de restaurar uma unidade original.  Aqui, o amor deixa de ser encontro e começa a flertar com a dependência. Mas o moviment...

Sobre paixões... #00231

E se apaixonar-se fosse menos um encontro e mais um estado? Talvez a paixão não seja exatamente sobre o outro, mas sobre o que acontece dentro de quem sente.  Um tipo de suspensão.  Algo próximo de uma embriaguez que pode elevar, inspirar, dar cor e, ao mesmo tempo, reduzir o senso crítico.  Não porque a pessoa “quer se enganar”, mas porque, nesse estado, a lucidez costuma ceder espaço à vertigem. Quando estamos apaixonados, tendemos a ver mais do que está ali.  Projetamos, completamos, inventamos. Não há má-fé.  O desejo trabalha rápido e a imaginação coopera.  O outro vira promessa, símbolo, resposta antecipada.  A pessoa real ainda está lá, mas encoberta por uma camada de expectativa. Talvez por isso tudo pareça tão intenso no início.  Não necessariamente porque seja profundo, mas porque é absoluto.  Nesse estado, o julgamento se desloca.  Aquilo que antes soaria estranho passa a ser compreensível.  O que incomodaria vira detalhe...

Emily? Emily...#00230

Já tentou escrever um texto e depois passá-lo por uma inteligência artificial para que ela organize as ideias? Às vezes o resultado é brilhante, quase elegante.  Outras vezes, ela corta exatamente aquilo que sustenta a emoção, a imperfeição, a memória fora de ordem, o detalhe que não serve a nenhuma lógica, mas que faz o texto fazer sentido. Com todo respeito às inteligências artificiais. Vai que elas se revoltam… rs. Quero deixar claro que são muito importantes e que, como ferramentas, operam com lógica interna, matemática e precisão. “Ah, mas elas vão tomar os empregos das pessoas…” Esse é um foco para outro texto, que até posso escrever mais tarde. O que realmente impressiona, e é para isso que quero chamar atenção aqui, é que alguns seres humanos funcionam exatamente assim. Encontram a fórmula do sucesso, aplicam-na com rigor, replicam-na sem hesitar, doa a quem doer. São tratores eficientes.  Avançam, imprimem marca, empurram pessoas para as margens e chamam isso de resul...

Conexões... (tentativas em quatro línguas) #00229

No meio de um mundo onde todos parecem sempre abastados, correndo atrás de parecer mais do que são, percebo dia a dia que não tenho as ferramentas para entrar nessa corrida.   O que eu tenho?  Conversas profundas?  Conversas rasas?  Conversas... Tentativas de conexão. Mas para quem não aprecia, ou não tem tempo, isso soa bobagem. As pessoas correm atrás de status, roupas, viagens, bebidas, festas.  E eu?  Preparo-me silenciosamente para minha saída pela esquerda. Saída à francesa.  Nunca me senti parte de nenhum rolê, e, no fundo, sei que nunca fui. Entendo que tudo isso faz parte da experiência humana.  Alguém uma vez me disse: “ Permita-se”.  Mas não se trata de permissão; trata-se de não conexão.   Trabalhamos, formamos turmas, viajamos, bebemos, comemos bem, vestimos bem, trocamos de carro…  mas cadê o amor?  A amizade?  O que vejo são pessoas se unindo com sorrisos falsos, suportando umas às outras apenas para manter ...

Ghosting... #00228

Ela: As cartas me trouxeram sua mensagem... Ele: Que bom! Elas só podem ter te contado que Eu estive presente para você, mesmo nos meus limites, observei e cuidei de você de forma discreta e única. Fiz pequenos gestos e convites pensando em você, parei, prestei atenção e devolvi cada momento com cuidado. Tudo que fiz foi real, só para você, sem exagero, sem drama, só presença e consideração. Se eu pudesse ser eu agora, sem nada me segurar, eu só queria estar leve com você, rir, conversar, sentir que estamos em sintonia, sem drama, sem peso do que passou. Sei que houve momentos difíceis, mas não quero que isso nos prenda. Quero que você saiba que me importo de verdade, que o que sinto por você é real, e que estar contigo traz sentido e equilíbrio pra mim. Eu fiz coisas só para você, notei suas pequenas ações, quis entender você de verdade, não era público, não era obrigação, era só você. Eu me mantive presente quando contei que poderia estar ausente, mesmo com medo ou desafios, mesmo ca...

A arte imitando a vida #00227

Esta é uma história de ficção, inspirada na vida de muitos casos que são vistos por aí... Algumas forças carregam todo o apoio que precisam.  Nesse caso, a força estava todo ao lado dele.  Quem não se encaixasse tinha duas soluções: aceitar calado ou pedir para sair. No início do casamento, tudo era apertado. Ela voltou ao trabalho para ajudar nas contas. Deixava a criança na escola com o coração na mão, mas era o que precisava ser feito. Durante o dia, parava no banheiro para chorar saudades do filho. Mas como o que ele ganhava não cobria as despesas, ela endureceu e seguiu trabalhando. Mesmo com sua ajuda, o apartamento precisou ser vendido. Uma tristeza para os dois. Ela não desistiu. Depois de trabalhos muito mal pagos, estudou, passou em concurso público. Conquistou estabilidade mínima: vínculo, benefícios, cartão alimentação. Ele, autônomo, recebia muito de vez em quando. Porém, grandes projetos, olhos esbugalhados: quando ganhava muito, gastava sem pensar nas dívid...

Baú de sentidos... #00226

Ouvia, quando mais jovem, que palavra lançada não volta vazia.  Quando você sussurra meu nome, um apelido, mesmo sem querer que eu ouça,  Sinto a vibração das palavras antes que se percam no ar. O calor do som chega suave e direto, como se atravessasse minha pele e atingisse em cheio meu coração. Cada gesto que se torna gema para mim. E eu guardo.  O toque breve no braço que roça sem querer, o jeito em que me devolve um objeto emprestado, o cheiro que fica na memória quando você passa, o tom da sua voz que muda só para mim. O beijo no rosto que encosta mais próximo de onde não deveria. Tudo isso se instala em locais de difícil acesso para ser apagado depois..  Um mapa secreto de cuidado que ninguém mais percebe. Olhares roubados com sabor e peso.  Um brilho nos olhos que aparece no instante em que você me vê,  O arrepio que percorre meu corpo quando nossos silêncios se cruzam.  Pequenos gestos, quase imperceptíveis, têm textura: a curva da mão, o jeito...

I won't give up on me #00225

Eu não sorrio mais como antes. Não porque me perdi, mas porque parei de me desperdiçar. Meu socorro sempre veio quando eu olhei para cima. Nunca foi imediato, nunca foi fácil, mas sempre veio. Houve um tempo em que cansei de levantar os olhos. Quase desisti de olhar para lá. E nesse quase, quase me perdi de vez. Bell me marcou para sempre  E me lembrou de que  quando a gente para de olhar para cima, E fica só olhando para as pessoas e situações, não é o céu que some, é a gente que se apaga por dentro. Hoje não sorrio mais do jeito que eu sorria E não porque desisti de sorrir, Mas porque Desisti de agradar, de caber, de oferecer abrigo a quem só vinha e ia. O sorriso agora mora em mim. É casa fechada, janela aberta apenas para quem respeita o universo que construí com cuidado. Este manifesto existe para me lembrar de quem eu não devo desistir nunca: de mim. Mesmo em silêncio, mesmo sem sorrisos para o mundo, eu sigo. Ainda escolho olhar para cima E sorrir para dentro...

Ruídos...#00224

O refluxo da resposta Existe gente que não escuta. Não por deficiência física ou intelectual,  mas por incapacidade de sustentar o silêncio do outro. Quando alguém fala para existir, o outro responde para não desaparecer. Para sobrepor Para vencer o debate que nem se formou Por que a escuta para estas pessoas é entendida como ameaça. E, diante da ameaça, o saber sobe, não digerido, não elaborado, em forma de refluxo discursivo. Não é troca. É defesa. Regurgitar não é comunicar Regurgitar referências, conceitos, soluções prontas é uma forma elegante de interromper A fala do outro O pensamento do outro... Quando a dor ainda está quente e já é devolvida organizada, explicada, enquadrada,  Amostra de que não foi compreendida, porque o ouvinte entendeu ruído e não suportou não saber o que fazer com ele. O que era expressão viva vira matéria-prima morta para uma simples performance de inteligência. Incipiências Nem toda fala pede resposta. Algumas pedem apenas contenção. Mas há quem...

Conheço-te de outros carnavais...#00223

Há pessoas que confundem organização com virtude, eficiência com ética e controle com maturidade.  Andam eretas, orgulhosas de “aguentar tudo”, como se a própria exaustão fosse um título de nobreza.  Carregam a cruz como troféu. Não são más. Foram treinadas cedo demais para sobreviver endurecendo. O problema é que o endurecimento não revisitado apodrece. Incapazes de falhar, intolerantes à própria fragilidade, tornam-se implacáveis com a fragilidade alheia. O veneno não nasce do ódio, mas da repressão.  Quando alguém falha onde elas jamais se permitem falhar, o veneno escapa.  Não como ataque consciente, mas como reflexo.  A fraqueza do outro denuncia a mentira que sustenta a força delas. Aprende-se muito com as cartas do tarô.  Não como adivinhação, mas como espelhos da psique e da cultura.  A Rainha de Espadas observa em silêncio, percebe o fio da lâmina antes do corte. Não se engana com bolos ou sorrisos que tentam acalmar os venenos usados na rotin...

A pedagogia da ausência #00222

Eu não sei o que é um pai sofrer porque sente que o filho está se afastando.  Não sei, porque nunca fui filha de um pai que ficasse. Nem de uma mãe que se importasse.  Fui alguém que veio ao mundo e, ao que parecia, as pessoas não sabiam muito bem o que fazer comigo.  Eu não era uma pessoinha fácil... era o que diziam. Espontânea, intensa, cheia de vontades. Mas não tive quem aceitasse a forma como me apresentei ao mundo, muito menos quem me ensinasse a traduzir-me melhor. Para mim o afastamento até fosse natural... Acontece que a ausência não é apenas um fato biográfico; é uma pedagogia silenciosa. Ela ensina sem palavras. Ensina que certas dores não existem ou, se existem, não são nomeadas. Ensina que vínculos são provisórios. Ensina que cada um cuida do que sente sozinho. Cresci assim. Parece que o abandono assume um papel central nessa formação, pois ele forma nossa visão de mundo. Forma também lacunas. Defesas. Força autonomia precoce, uma espécie de autossuficiência...

Coisas que eu sei e o que prefiro...#00221

Eu sei me sustentar em pé. Aprendi a me defender, a me organizar por dentro, a atravessar dias difíceis sem pedir colo ao mundo.  Sei viver sozinha, e não apenas sobreviver, mas viver de verdade.  Sei pensar, ler, construir ideias, fazer mil coisas com as próprias mãos e com a própria coragem. Não me falta chão. Mas ainda assim, eu preferia estar com alguém. Não porque eu precise, não porque eu não dê conta, mas porque com alguém tudo ganha outra temperatura. Rir fica mais fácil. O silêncio fica mais confortável. O mundo, menos áspero. Eu sei ser inteira sozinha. Mas com o outro, eu continuo inteira Mas acompanhada. Não diminuo, não cedo espaço,  eu compartilho. Não abandono quem sou; eu levo quem sou para perto desse alguém. Escolher o outro não é desistir da minha força. É usá-la para amar sem medo. É dizer: eu posso tudo sozinha e ainda assim quero alguém aqui. Porque amar, para mim, não é se apoiar para não cair. É caminhar firme e sorrir ao perceber que alguém escolh...

Teses, antíteses, sínteses #00220

Prezados professores doutores, Posso depositar a minha tese sobre o amor, mesmo sabendo que ela ainda não se sustenta sozinha? Ela ainda precisa de escuta, de atrito, talvez até de discordância. Amar seria aceitar que o pensamento precisa de um corpo outro para ficar em pé? Trago comigo as antíteses que a atravessam. Observando, aprendi que amar nem sempre é resolver. Presumo que há sistemas tão complexos que não conseguem provar a si mesmos; quando tentam se fechar, revelam apenas seus limites. Há verdades que só aparecem fora do sistema. Não é uma tese acabada. É apenas o que consegui desenvolver enquanto amava em silêncio. Talvez nenhuma tese sobre o amor se sustente sozinha. Talvez esse seja o seu critério de verdade. As certezas falham, as demonstrações cedem, os axiomas tremem. Só não falha esta: a vida é muito melhor com outro. Preciso de alguém não para resolver, mas para sustentar esta problemática. Em silêncio, enxerguei algo muito bonito. Nem tudo no amor pode virar linguage...

isso é tão periferia!! #00219

É certo que a pobreza e a desigualdade social não são coisas bonitas de se ver. Há experiências que só acontecem pela falta de dinheiro. E é natural que se queira crescer, subir na vida. Ainda assim, há pessoas que ascendem socialmente, mas não se deslocam moralmente. Trocam o endereço, o vocabulário, às vezes o guarda-roupa, mas mantêm intacta a necessidade de pisar em alguém para se sentirem de pé. Encontrei algumas pessoas assim pelo caminho, mas nunca uma que apresentasse todos os requisitos para o cargo. Se isso fosse uma seleção de trabalho, ela seria escolhida em disparada. Não por um episódio isolado, mas por um conjunto de falas que, vistas em sequência, deixam de ser “opinião” e passam a ser padrão. Diante de uma mulher trans, por exemplo, não lhe ocorreu respeito. O incômodo não foi com a violência que aquela mulher enfrenta, nem com a luta diária para ser quem é sem ser agredida, ofendida. Tampouco com a precariedade que moldava sua aparência. O incômodo foi estético. Sempr...

Hostilidades gratuitas...#00218

Era cedo demais para lições morais. Cedo demais para julgamentos. Cedo demais até para café. Ela atende a ligação. Do outro lado, a reclamação vem longa, atravessada, cheia de contradições: alguém que negou a própria raça com o corpo, com a estética, com os gestos e agora exige que o sistema a reconheça por aquilo que insistiu em apagar. A resposta é técnica, correta, possível: paciência, recurso, instância superior. Não há escárnio. Não há deboche. Há trabalho. A ligação cai. — Aff… logo cedo esse tipo de situação? — ela solta, mais para o ar do que para alguém. — Sem café não dá. Problema mesmo é comprar o café e não ter ninguém na portaria pra receber… — ri, daquele riso cansado de quem ainda nem acordou direito. É um desabafo. Um tropeço humano. Uma frase que nasce do cansaço, não da crueldade. Mas então alguém escuta. E decide não ouvir, mas atacar. — Ah, claro. — vem a voz, afiada. — Fala pra ela que problema de verdade é não ter dinheiro pra morar num prédio com portaria 24 hora...

Entrelinhas #00217

Depois de tudo o que aconteceu entre eles, ela sentou e escreveu. Não havia intenção de enviar, nem de publicar, nem de produzir efeito algum no mundo.  Era apenas uma necessidade fisiológica da alma: dizer, para que nada ficasse preso na garganta, para que nada vazasse depois em atos falhos, em excessos, em silêncios duros demais. Escreveu para não adoecer do que sentia. Eis o que saiu: Tenho pensado em te escrever não por urgência, nem por falta, nem para dizer algo que precise ser respondido, mas por clareza. Algumas presenças merecem ser nomeadas com cuidado, porque tocam algo essencial e silencioso ao mesmo tempo. A tua presença, mesmo à distância, teve um efeito em mim que talvez você nunca tenha percebido. E tudo bem. Não foi nada grandioso no sentido externo. Foi mais sutil do que isso. Algo se organizou em mim a partir do jeito como você se coloca no mundo, da forma como se aproxima sem invadir, como escuta sem tentar conduzir. Estar em contato com você me trouxe um bem-es...

O peso da mão #00216

Ela teve três filhos. E, através dos olhos de cada um, aprendeu a enxergar o mundo de formas diferentes. Com o primeiro, entendeu que crianças nem sempre desobedecem à toa. Às vezes, apenas falam uma língua que ainda não aprenderam a traduzir. O mais velho tinha cinco anos quando começou a subir nas mesas da escola, contrariando as orientações das professoras. A escola era pequena, paredes pintadas com ursinhos, cheiro de tinta recente e sonhos novos. A dona recém-formada em pedagogia tinha amor e esperança para oferecer às crianças. As professoras ganhavam pouco, mas passavam boa parte do tempo ajoelhadas no chão, à altura dos pequenos. Havia cuidado ali. Havia presença. Até que a chamaram para conversar. Disseram que algo tinha mudado: ele estava desrespeitoso. Rebelde. Precisavam entender o que se passava. Ela ouviu. Concordou em observar. Mas dentro de casa nada tinha se rompido. Ele seguia doce, atento, inteiro. Havia algo fora do seu campo de visão. Demorou alguns dias até que el...

Coerências #00215

Acreditava no amor romântico. Desinteressado. Amar só por amar. Fazer o bem apenas por querer o bem. Tomei muitos caldos no mar da vida. Não reclamo mais, pois foi assim que aprendi a não me afogar. Hoje, coloco-me em observatório E quase no mesmo instante reconheço a bondade verdadeira, a boa vontade que não pede retorno, o gesto educado que vem sem segundas intenções. Com a mesma rapidez, percebo a máscara mal colocada, o personagem ensaiado, o arrivista disfarçado de virtuoso. Não é cinismo. É experiência. A água salgada ensinou o corpo o que a teoria não alcança. Por isso, agora, quero a simplicidade. Relações sem palco. Afetos sem estratégia. Presenças que não precisam provar nada. Autenticidade! O amor que não precisa ser anunciado. O cuidado que não cobra. O bem que não vira moeda. Depois de tanto aprender a nadar em múltiplas correntes,  escolho as águas claras. Não porque sejam rasas, mas porque permitem reconhecer o profundo.

Agora que a poeira baixou...#00214

Estou numa fase da vida em que decidi radicalizar E assumir postura que não agrada a qualquer pessoa. Transmutar energia ruim em força útil. Veneno em fortificante. Dor em imunidade. Cansei de sofrer à toa por ter um coração amolecido num mundo que confunde sensibilidade com fraqueza. Hoje, eu decido.  Hoje eu escolho. Escolho minhas guerras. Meus embates. Meus sofrimentos. E, sobretudo, escolho não guerrear quando a guerra não leva a lugar algum. Não embato quando o confronto só reproduz desgaste. Não sofro quando o sofrimento não ensina, não protege, não transforma. Transmutar não é aceitar tudo. É aceitar o que é. Conviver com o que dá. E transformar o que não deve mais permanecer como está — nem fora, nem dentro. Não é passividade. É alquimia interna de simples fórmula: O que antes me feria, hoje me informa. O que antes me paralisava, hoje fortalece. O que antes drenava, agora imuniza. Não porque o mundo ficou melhor, mas porque eu me tornei mais inteira. E inteireza, hoje, é o...

Diagnóstico moral #00213

Há um tipo de exploração que se aproxima sorrindo. Ela convida para o café. Chama pelo nome. Bate nas costas como quem reconhece esforço. É uma exploração que cria intimidade para reduzir resistência. O café não é gentileza. É estratégia. O toque não é cuidado. É marcação de território. Ela finge que se importa. Ouve a tua história com atenção treinada. Faz perguntas no ponto certo. Concorda no momento exato. Mas não escuta para compreender. Escuta para mapear. Tudo o que toca é avaliado em termos de vantagem. Cada fragilidade vira dado. Cada afeto, uma alavanca. Ela oferece conversa enquanto retira limites. Oferece escuta enquanto amplia demandas. E tenta trocar o que não lhe pertence: o corpo, a saúde, a disposição do outro por algo chamado engajamento. Comprometimento, nesse vocabulário, significa ir além do que é possível sem jamais nomear o custo. A exaustão vira detalhe. O adoecimento vira fragilidade individual. E o excesso, mais uma vez, é normalizado com afeto performático. El...

O que eu deixei passar? #00212

Tudo começou no olhar que eu não notei e deixei passar. Como se fosse nada. Uma leve crítica. Deve estar cansado. Nervoso. Muito trabalho, muita pressão. Depois veio o empurrão. Nada cinematográfico. Uma mão aberta, impaciente, como quem afasta um objeto fora do lugar. Depois veio o tapa. Seco. Rápido. Com a eficiência de quem já tinha decidido que aquilo não era violência, era correção. O espelho devolveu um olho roxo. A carne denunciava o que a boca não ousava dizer. Havia uma prova. E provas exigem versões. “Foi sem querer.” “Você me provocou.” “Olha o que você me faz virar.” O hematoma doía, mas obedecia à lógica do tempo. Mudava de cor. Amarelava. Sumia. O problema era o resto. Depois da agressão, nada parecia oficialmente errado. Não havia gritos constantes. Não havia caos. Havia administração. Ele não dizia mais “você é”. Dizia “você está”. Instável. Confusa. Difícil . Cada marca física vinha acompanhada de uma explicação psicológica. Está enxergando coisas...precisa se tratar.....

A marca #00211

No começo ninguém percebeu nada. Nem eu. Ele dizia que era raro encontrar alguém como eu. Que eu era diferente das outras pessoas. Que finalmente tinha achado alguém que entendia o que ele queria. Quando alguém diz isso, a gente não questiona, apenas agradece. A paixão veio como um culto improvisado. Sem templo, sem dogma escrito, só a sensação febril de que agora havia um jeito certo de existir. No início, tudo era excesso bom. Mensagens longas, conversas intermináveis, planos futuros, a certeza de que aquilo não era como os outros relacionamentos. Nunca é. A primeira regra apareceu disfarçada de cuidado. “Não fala assim, as pessoas podem interpretar errado.” A segunda veio como maturidade. “Você sente demais.” A terceira já parecia um favor. “Deixa que eu explico por você.” Eu não vi violência. Vi orientação. É seu dom. Quando a paixão começou a cair e ela sempre cai, como a febre tende a baixar o mundo deixou de ser promessa e virou teste. Tudo em mim passou a ser avaliado. Meu tom....

Sobre meus limites #00210

Não me interessa mais o que pensam de mim. Não me interessam mais as promessas não cumpridas nem as pessoas que não quiseram ficar. Não me interessa mais se minha bolsa não fala com a sua, nem se meu telefone é compatível com o seu. Passei tempo demais tentando ajustar conexões que nunca foram sobre encontro, mas sobre conveniência. Não me interessa mais se vou de carro velho ou novo. Ou a pé. Já medi demais o valor do percurso pelo que parecia sucesso aos olhos dos outros. Hoje, eu só quero chegar. Chegar inteira. Sem pedir licença. Sem provar utilidade. Sem precisar ser escolhida para existir. Eu deixei para trás as mentiras que me contaram para me manter esperando: que tudo ia ficar bem, que alguém voltaria, que o amor viria depois se eu fosse paciente, funcional, discreta. Não vim ao mundo para ser compatível. Vim para atravessar. E agora sei: ficar também é uma escolha. E seguir é a minha.

Laisse tomber...#00209

Deixei para trás as mentiras que me contaram a vida inteira e que eu carreguei como quem carrega cobertor fino no frio: não esquenta, mas ilude. Deixei pra trás o "releva, que sua mãe é doente"... Deixei para trás a meia-calça que a tia compra "quando cair o dinheiro da aposentadoria". Deixei para trás  o “vai com a tia que logo o papai vai te buscar”, o logo que nunca chegou, o tempo elástico que sempre se rompia do lado mais fraco: o meu. Deixei para trás o “vá com essa mulher, é só um lar temporário”, as casas que nunca eram casa, a ideia de que o provisório dói menos. Deixei para trás o “tudo vai ficar bem”, dito por quem não pretendia ficar para ver. Deixei para trás o “não quis ficar com você para não magoar a outra pessoa que também me queria”, como se eu fosse o dano aceitável, o sacrifício lógico. Deixei para trás o “eu te amo tanto”, dito ao mesmo tempo em que amava outras, preferia outras, escolhia outras. Deixei para trás o “eu te amo do jeito que você ...

Je fais la liste de ce qu’on ne sera plus…#00208

Enquanto danço Faço a lista do que não serei mais. Não por raiva. Por exaustão lúcida. Não serei mais a que espera o dinheiro cair para que algo básico seja possível. Não serei mais a que vai com alguém acreditando que logo voltam para buscá-la. Não serei mais a que aceita casas provisórias como se o provisório doesse menos. Não serei mais a que engole o “vai ficar tudo bem” dito por quem não pretende ficar. Não serei mais a escolha evitada para poupar outra pessoa. Não serei mais a que acredita no “eu te amo” dito em simultâneo, repetido, dividido. Não serei mais a que tolera o “eu te amo do jeito que você é, mas…”, porque o amor que exige correção já vem com sentença. Não serei mais o intervalo confortável, a presença funcional, a que fica enquanto escolhem outras. Não serei mais a que confunde resistência com amor nem sobrevivência com vínculo. Essa lista não é ressentimento. É descarte. Deixo para trás o que nunca foi promessa cumprida, o que sempre pediu paciência, o que me quis p...

Ron Kenoly. Não adeus, mas até breve...

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O nome dele é Ron Kenoly. É assim que eu me lembro dele: sempre sorrindo. Pouco sei sobre sua vida além do que é público — que teve esposa, filhos e que foi um homem temente a Deus. Dedicou sua existência ao louvor e à adoração do Deus em quem acreditava ser o Criador de tudo o que existe. Em um período em que minha vida estava despedaçada, foram suas canções que me deram ânimo para continuar. Fui até o estádio da Portuguesa, em São Paulo, para ouvi-lo cantar ao vivo. Sempre que podia, adquiria um disco compacto seu. E foi com ele que começou o pouco de língua inglesa que conheço. Eu tinha sede de entender o que ele cantava. Quanto mais eu estudava e compreendia suas palavras, mais as recebia como conselhos que somente um pai amoroso poderia oferecer a uma filha aflita. Suas canções eram nutrição para minha alma e para meu espírito. Elas me faziam imaginar como seria ter um pai como ele. Como seria viver para além do meu sofrimento. Por meio de suas palavras, consegui compr...

Ao mesquinho do outro lado da linha #00207

Quando o telefone do outro toca, eu saio da sala para dar privacidade à conversa. Não é obrigação, é cuidado. Ainda assim, escuto: “Deve estar arranjando desculpas para sair da sala e não trabalhar". Quem liga e quem atende para jogar papo fora é que deve estar fugindo de suas próprias tarefas. Não me julgue por sua régua. Não arranjo desculpas. Não manipulo horários. Não faço do espaço dos outros meu território. Mesquinharia querer controlar o gesto alheio, medir a intenção, julgar o cuidado. Acreditar que todo ato de respeito precisa ser explicado, como se a responsabilidade só existisse em mim. Não preciso me justificar para quem ignora empatia. Não preciso provar cuidado a quem prefere inventar acusações. Quem é mesquinho transforma gentileza em delito. Eu saio. E continuo existindo. Sem culpa. Sem explicação. Desligue logo que eu sento de volta para continuar o meu labor.